name: Biblioteca goal: 600 Fui há tempos à biblioteca ver um filme. Podia vê-lo em casa, é certo, tenho opções. No entanto, obriga-me a sair, a conviver um pouco com outras entediadas almas. Como eu, estão sob o sequestro de um Inverno muito rigoso, uma força gélida, húmida, branca e interminável. Estas sessões são o resultado do esforço e dedicação de uma energética funcionária da biblioteca. A senhora, a poucos meses de se aposentar, escolhe os filmes com critério. Vê-os previamente. Faz depois um resumo mental deles, e que lhe vai servir mais tarde para elucidar o público antes de o filme começar. Às seis em ponto da tarde está à porta com um sorriso de boas-vindas. Depois, e à medida em que as pessoas vão entrando, pergunta se querem pipocas. Distribui então saquinhos pelos interessados. A certa altura apaga as luzes, fecha a porta e vai atender o público. Volta mais tarde, acende a luz, pára o filme. «Alguém precisa de ir ao quarto de banho?» Valeu a pena enfrentar a chuva nocturna, o trânsito impaciente e cego para ver *The Lady in the van*. Baseado numa história verdadeira, o argumento foca a relação do escritor britânico Alan Bennet e Mary (protagonizada pela actriz Maggie Smith), uma sem-abigo que viveu 15 anos numa carrinha amarela, estacionada à entrada da sua casa. A história apareceu primeiro num volume de memórias do escritor, após o falecimento de Mary. Mais tarde, em 1999, foi adapatado ao teatro. Finalmente, em 2015, ao cinema. Irascível, mal-educada, carrancuda e ingrata, são defeitos desprezíveis que se evidenciam no carácter de Mary. Não obstante esse negativo vínculo vemo-nos, estranhamente, a sentir não repulsa mas empatia por ela. A sua vulnerabilidade aproxima-nos, a sua postura de *outsider*, uma certa inocência na interpretação dos meandros da vida, a coerência com que abraça as suas convicções e se defende até da crueldade com que às vezes é tratada. As delimitações do seu espaço habitacional não a confrangem nem a desmotivam. É um ser que vive agradado com aquilo que tem. Perseguem-na, no entanto, os declives emocionais do seu passado. O mais evidente é o sentimento de culpa em relação a um acidente de automóvel e no qual um jovem motociclista perdeu a vida. Mary não se conforma com o facto de ter fugido em pânico do local do acidente, assumindo uma culpa que de facto não teve.